Depoimento de Antônio Carlos Damázio
"Eu sou aquele espermatozóide que, numa corrida frenética, foi o primeiro entre milhões, fecundando um óvulo que me deu a vida ao mundo no dia 14/06/1942. Sou primogênito de um casal humilde, em cuja família vieram mais três irmãos. Sempre tive a necessidade de vencer, correr atrás dos bens materiais. Na escola, estudei com bolsa da prefeitura e não podia ser reprovado para não perdê-la. Trabalho desde os 12 anos de idade, iniciando a vida como auxiliar e, invariavelmente, acabava assumindo a chefia por onde passei. Sentia-me um super-homem que tudo podia; cuidei muito da matéria, esquecendo-me do principal, que é apreciar a vida no seu plano espiritual. Tinha pouco tempo para Deus e para meus semelhantes, pois tempo era dinheiro e eu precisava cada dia mais galgar o caminho do sucesso. Jamais me via aposentado, doente, deficiente ou dependente de outras pessoas. Achava que os acontecimentos eram meras estatísticas e que só ocorriam com os outros. Fiquei diabético e menosprezei as conseqüências que a doença poderia trazer. Vivi minha vida de vidente durante 61 anos de plena atividade, até que fui acometido pela neuropatia diabética, que ocasionou a minha cegueira. Aí então é que pude entender o quanto era deficiente, pois desconhecia que dentro desse corpo mutilado existe uma alma tão jovem e desejosa de vida.
Descobri a escola Helen Keller e a AADV, onde tenho aprendido a reparar aquilo que não fiz quando podia. A nossa comunidade é alegre, festiva, com uma diretoria jovem e eficiente, com professores, funcionários e voluntários que nos ensinam diariamente que a alegria, a independência e a eficiência fazem parte do nosso cotidiano. Não somos "coitados", mas sim espíritos diferenciados que procuram a verdadeira inclusão social com direitos e deveres. Aquela imagem do ceguinho sentado à porta da igreja tocando acordeon a troco de umas moedas já era. Segundo o IBGE, considerando todos os deficientes (visuais, físicos, auditivos, mentais) somos 18 milhões de pessoas e é bom que você que está lendo meu depoimento procure não aumentar essa estatística, cuidando muito bem de sua saúde. Mas, caso o destino o torne um deficiente, não fique triste, pois existe outra vida que você irá encontrar no paraíso chamado AADV!"
Depoimento postado em 13/09/2007
