“História da evolução e desenvolvimento dos recursos que permitem hoje o deficiente visual interagir e poder trabalhar e estudar com o auxílio do computador”
Aparecido Sisti
“Durante séculos os cegos foram considerados como seres inúteis, como uma espécie inferior e fatalmente voltados à ignorância. Ensinar os cegos a ler, ainda é hoje espantoso; outrora parecia inverossímil”.
Foi há dois séculos que tudo começou, na França, por um certo Sr. Valentim Hauy, nascido em 1745, filho de um pobre tecelão.
Por volta de 1771, em Paris, Hauy presenciou uma cena dantesca, escandalosa, que o emocionou e revoltou: um empresário sem escrúpulos, utilizando uma dezena de cegos apresentava um espetáculo de mau gosto para atrair público. Tomado de indignação e piedade, Hauy jurou auxiliar os cegos e por muito tempo buscou meios que permitissem instruí-los. Em 1784, Hauy adota um cego, Lesuer, que esmolava em uma igreja de Saint German dês Pres.
Um dia, Lesuer encontrou entre os papéis acumulados na mesa do mestre, um bilhete impresso, no qual os caracteres estavam em alto relevo: ele decifrou algumas dessas letras e disso lhe deu notícia.
A partir daí, Hauy reuniu alunos cegos, oferecendo o primeiro livro em alto relevo.
Já em 1789, mesmo ano da Revolução Francesa, o Rei Luiz XVI admitiu cegos como músicos de igreja.
Esse primeiro método rudimentar consistiu apenas na impressão dos caracteres em alto relevo, mas caracteres especiais. O método da escrita então desenvolvido recebeu apoio da Academia de Ciências Francesa e rapidamente criou-se a Instituição das Crianças Cegas, para sua alfabetização.
Em 1786, Hauy publicou um trabalho dedicado ao Rei da França intitulado “ÉSSAY SUR L'EDUCATION DES AVEUGLES”, uma exposição sobre os diferentes meios usados pela experiência para que as crianças cegas possam ler por meio do tato.
Estava aberta a clareira inicial que descobrira o fato de os cegos poderem desenvolver seu tato. Fê-lo Hauy o primeiro instrutor de cegos. Foi criado o Instituto Valentim Hauy, que há mais de 200 anos deu o passo inicial para melhorar a educação e a instrução dos cegos.
Quarenta anos mais tarde o também francês Louis Braille nos daria o método que ainda hoje triunfa: a leitura tátil dos seis pontos.
Entre Hauy e Braille existiu um Capitão da Artilharia do exército de Luiz XIII que contribuiu para o desenvolvimento dos recursos usados pelos cegos.
Ele tinha dificuldades em transmitir ordens durante a noite: elaborou então um sistema de sinais em alto relevo que permitia a transmissão de ordens militares. No escuro os subordinados decifravam pelo tato as ordens superiores. O sistema foi denominado “escrita noturna” e consistia na combinação de pontos e traços em alto relevo que traduzia ordens tais como: “AVANCE”. Barbier pensou na possibilidade do seu processo servir para a comunicação entre pessoas cegas. Transformou-o então num sistema de escrita para cegos, que denominou de ‘GRAFIA SONORA”.
Através da “Grafia Sonora” qualquer sentença podia ser escrita, mas como o sistema era fonético as palavras não podiam ser soletradas. Um grande número de sinais era usado para uma única palavra, o que tornava a decifração longa e difícil. Foi por volta de 1820 que Barbier apresentou seu sistema ao Diretor da Instituição Real para Cegos de Paris.
Foi a partir do método de Barbier que Louis Braille (depois de denominá-lo) viria desenvolver seu novo sistema de escrita em alto relevo para cegos a partir de um conjunto de seis pontos, em dois grupos de três, que permite representar todos os caracteres alfanuméricos.
Louis Braille nasceu em 04/01/1809 em Coupvral, cêrca de 45 km de Paris. Quarto filho de um conceituado seleiro da região. Ao manusear um perfurador este atingiu-lhe o olho esquerdo, perfurando-o.
Levado ao médico da aldeia, nada de útil pôde ser feito. A partir do olho esquerdo desenvolveu-se uma gravíssima enfermidade conhecida como oftalmia simpática, em que ambos os olhos são atingidos, após comprometimento de um deles. Ainda hoje a doença é gravíssima, somente em alguns casos muito especiais consegue-se debela-la.
Isso foi em 1812. Em 1819, com dez anos, Braille ganhou uma bolsa de estudos no Instituto Real para Jovens Cegos de Paris.
Na reabertura das aulas, em outubro de 1824, Braille que tinha dominado o método Barbier, tinha sua invenção pronta: aos 15 anos de idade inventou o alfabeto Braille, semelhante ao que se usa hoje, obtendo com seis pontos em alto relevo 63 combinações que representam todas as letras do alfabeto, números, acentuação, pontuação e sinais matemáticos.
Louis Braille morreu de tuberculose pulmonar em 06/01/1852, aos 43 anos.
Hoje a cegueira é ainda um infortúnio. Mas as armas para superá-la multiplicam-se dia-a-dia. Recupera-se psicológica, social, cultural e profissionalmente o cego, para que eles procurem se aproximar de seu exemplo maior, que foi Helen Keller, que não gostava que a distinguissem dos outros seres, pois considerava que os cegos devem viver e trabalhar como quaisquer pessoas e viver o peso das mesmas responsabilidades.
O texto acima foi obtido a partir de um discurso proferido pelo falecido Dr. Hilton Rocha, famoso oftalmologista de Belo Horizonte, por ocasião do IV Congresso Brasileiro de Prevenção da Cegueira, acontecido em Belo Horizonte de 28 a 30/07/1980.
Helen Keller nasceu em 27/06/1880 em Alabama nos EUA, filha do influente Capitão Keller, dono do jornal “North Alabama”. Helen, aos 19 meses de idade foi acometida de uma congestão cerebral, com perturbações gástricas; talvez uma meningite, mas curiosa e felizmente poupando-lhe a lucidez do espírito e a higidez física, apenas comprometendo-lhe parte do sensório.
Os médicos desenganaram-na mas ela se salvou, ficando cega, surda e muda. A menina, repleta de carinhos, cresceu rebelde e birrenta. Vivia e pontificava em Baltimore o celebrado oftalmologista Julian John Chilsolm (1830-1903).
Quando Helen tinha seis anos de idade seu pai levou-a ao Dr Chisolm para tentar restituir-lhe a visão. De forma humana ele disse ao Capitão Keller sobre o destino inexorável da filha, fazendo-se no entanto urgente que ela se educasse.
Chisolm pediu orientação segura de Alexander Grahan Bell (o mesmo da invenção do telefone): um mês depois Helen já tinha sua professora, Anne Sullivan.
Chisolm sugerira a cooperação de Grahan Bell (1847-1922) um físico norte-americano, também inventor, de origem inglesa, que a principio ensinara linguagem aos surdo-mudos por meio de sinais. Em 1873 Grahan Bell passou a professor de fisiologia vocal da Universidade de Boston. Construiu em 1874 um ouvido artificial capaz de registrar sons. Suas pesquisas, para fazer com que os surdos ouvissem, levaram-no à invenção do telefone em 1876.
Grahan Bell comunicou-se com o Diretor do Instituto Perkins para Cegos em Massachussets (em 1886) e este contatou Anne Sullivan que foi contratada ganhando 25 dólares por mês para educar Helen Keller.
Anne Sulivan foi a grande professora que propiciou o desenvolvimento e a formação do grande mito que foi Helen Keller. Anne ficou cega parte de sua vida e foi nesse período que recebeu treinamento no Instituto Perkins para Cegos em Massachussets. Foi operada de um tracoma por volta de 1884 e recuperou a visão. Rapidamente, dentro de um mês, ela já conseguia se comunicar com Helen.
Foi longa e árdua a tarefa de educação de Helen Keller feita por Anne Sullivan: não havia técnicas de ensino que permitissem o treinamento de uma criança cega, surda e muda. Isto por volta de 1886. Os primeiros recursos usados foram a colocação dos dedos no pescoço, sobre as cordas vocais. Helen relacionava as palavras com os diferentes objetos. A primeira palavra pronunciada foi água. Rapidamente passou não só a ler, mas escrever em braille.
As armas usadas por Anne foram perseverança, paciência, tato e a caridade.
A instrução de Helen foi complementada na Escola para Surdos Horace Mann (em Boston) e na Escola Oral Wright Humason (New York). Ela aprendeu não só a ler, escrever e falar, mas tornou-se excepcionalmente bem educada.
Em 1900, aos 20 anos de idade, ela ingressou no Radcliffe College, graduando-se em 1908.
Ela foi um dos casos mais extraordinários conhecidos na educação do cego-surdo-mudo, dominando diversos idiomas e com uma cultura geral muito elevada. Escreveu numerosos livros, artigos e conferências.
Seus dedos não apenas tateavam vertiginosamente o Braille, mas detectavam vibrações na garganta, nos lábios, até nos instrumentos, para poder conversar, ouvir e sentir com a educação do tato.
Helen Keller continuamente lutou para obter dinheiro e outras vantagens para auxiliar os cegos. Ela lutou para elevar o status das pessoas cegas e oferecer oportunidades para a educação das crianças privadas da visão. Viajou por quase todo o mundo, inclusive Brasil, fazendo campanhas e conferências para levantamento de fundos para as instituições de auxílio aos cegos. Hospitais e escolas para cegos, sob seu bafejo, multiplicaram-se por toda parte. Durante a I e a II Guerras Mundiais visitou hospitais militares encorajando os soldados que se cegavam.
A par dos fatos narrados até aqui, por esse trabalho de orientação de Helen Keller, surgiram por todo o mundo, incluindo o Brasil, instituições especializadas na educação e suporte aos deficientes visuais. Destes, podemos destacar:
No Brasil:
D. Pedro II funda em 17/09/1854 no Rio de Janeiro o Instituto Benjamim Constant, inicialmente denominado Imperial Instituto dos Meninos Cegos. É uma instituição federal voltada ao ensino dos Deficientes Visuais;
João Penido Burnier fundou em 01/06/1920 o Instituto Oftálmico de Campinas, depois denominado “Instituto Penido Burnier”;
Em 02/09/1926 no Governo Mello Vianna (estadual mineiro) fundou-se o segundo instituto para cegos no Brasil, o tradicional Instituto São Rafael de Belo Horizonte;
Em São Paulo a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, posteriormente Fundação Dorina Nowill que tanto nos ajudou no passado com a doação de livros para nossa biblioteca braille. Também presta serviços na avaliação e orientação para a educação dos deficientes visuais;
Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo da Prefeitura Municipal de São Paulo, que atende pelo correio ofertando livros para estudantes pelo Brasil afora. Foi lá que tomamos conhecimento do sistema de impressão braille via computador;
Instituto Gabriel Porto da UNICAMP que também trabalha no atendimento e suporte à educação de estudantes deficientes visuais de sua universidade, e também de fora;
Aqui em Poços temos a AADV-PC – fundada em início de 1982 por D. Nini Mourão e um grupo de pessoas do Lions. Adiante, temos um resumo das atividades desenvolvidas pela AADV-PC desde sua fundação.
A ong LARAMARA de São Paulo possui uma larga variedade de equipamentos destinados aos DV's, o mais importante dos quais é a fabricação sob licença da empresa americana The Howe Press of Perkins School for the Blind das máquinas de escrever mecânicas Perkins. Com o advento da informática estas máquinas mecânicas de escrever estão entrando em desuso.
Nos EUA:
Há quase 150 anos foi fundado o Instituto Perkins, hoje “The Howe Press of Perkins School for The Blind” em Watertown, Massachussets, que ao longo do tempo se tornou um Centro formador de profissionais especializados na educação dos Deficientes Visuais, bem como um centro industrial produtor de equipamentos para esses deficientes. É de lá que saem as famosas máquinas de escrever mecânicas PERKINS, usadas no mundo todo, hoje quase em desuso pelas facilidades do uso do computador.
Na região de Nova York existe a empresa EVAS – ABILITY-PRO, Eletronic Visual Aid Specialists, fundada em 1879, uma instituição privada de Rhode Island que provêm acesso ao computador a “pessoas deficientes” e desenvolve programas, que permitem ao Deficiente Visual trabalhar com computadores.
Na Califórnia, em Sunnyvale, existe a empresa Telesensory, fabricante de diversos tipos de equipamentos destinados ao uso pelos deficientes visuais, principalmente a impressora braille Versapoint.
Em todos os outros paises desenvolvidos existe um sem número de empresas e centros de desenvolvimento trabalhando no desenvolvimento de recursos para uso dos deficientes visuais: na Universidade Federal do Rio de Janeiro foi desenvolvido o programa de computador DOSVOX que sintetiza em voz um determinado texto do computador, ou seja o computador lê o texto para o deficiente, não havendo mais a necessidade cara e trabalhosa de se imprimir em papel, em braille, o mesmo texto, ou do recurso de uma pessoa vidente que leia o texto para o deficiente, pois o computador faz este trabalho. Também, agora em São Paulo , sob patrocínio do Bradesco, foi desenvolvido um programa semelhante (Virtual Vision). Este recurso permite hoje que os estudantes cegos estudem em igualdade de condições, mesmo matérias que demandem grande intensidade de leitura.
Com o advento da informática, uma série de recursos foi desenvolvida, e que permitem hoje o deficiente visual interagir com o seu computador, eis uma listagem de alguns:
Softwares que lêem a tela do computador, e falam em voz sintetizada, mesmo operando em ambiente windows e sonorizam o teclado;
Impressoras braille comandadas por computador que imprimem em alto relevo;
Scanner's que permitem copiar textos para dentro do computador em forma de imagem, que depois são interpretados e reconhecidos seus caracteres por programas especiais;
Programas OCR que reconhecem caracteres nos textos copiados via scanner;
Programa verificador ortográfico de português;
Programa DUXBURY tradutor para o braille;
Nosso projeto inicial para informatizar a AADV-PC, datado de junho de 1997, na verdade era o clímax de uma pesquisa iniciada em 1990. Os objetivos do projeto eram inicialmente dois:
produzir material didático em braille;
permitir uma nova área de treinamento e de trabalho aos deficientes visuais.
O CENTRO DE COMPUTAÇÃO Braille ALCOA FOUNDATION da AADV é o que de mais moderno existe em recursos de computação e revolucionou a educação de nossas crianças de Poços de Caldas e região.
O grande entrave na educação dos Deficientes Visuais foi removido: até tempos recentes a produção de material didático era feito manualmente através de regletes ou máquinas mecânicas de escrever, trabalho árduo, demorado e caro e responsável pelo atraso na educação dos Deficientes Visuais.
O COMPUTADOR COMO FONTE DE PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO EM BRAILLE OU SONORO PARA OS DEFICIENTES VISUAIS
Antes do advento do computador, a educação escolar e cultural do deficiente visual sofria um grande entrave pois livros e apostilas escolares tinham de ser transcritos manualmente, uma cópia por vez, gerando muito trabalho e despesa pois uma página de texto em tinta pode requerer até seis páginas impressas em braille.
Com o advento da informática acaba o trabalho manual e demorado de transcrição que passa a ser executado por um sistema de computação já descrito, composto por computadores dotados de altas velocidades de processamento (porque trabalham com imagem) e grande capacidade de memória (também devido trabalhar com imagem), que está abaixo relacionado:
04 microcomputadores, sendo dois Pentium II, de 300 MHZ, e dois AMD K611 550 MHZ, ambos com 64 MB de RAM, monitor SVGA, drive de 3,5 polegadas (1,44 MB), HDD de 10 GB, drive de CD-Rom de 52X, kit multimídia completo;
03 scanner's de mesa, sendo 1 da Hewlett Packard (HP) modelo Scanjet 6100 C , e outros dois Genius Color Page-Vivid III;
01 impressora Epson de 132 colunas modelo FX-2170;
01 impresssora jato de tinta da HP modelo 692-C;
01 impressora para braille sueca marca Index, modelo Everest Braille Printer, para folhas soltas, dupla face de impressão;
01 impressora para braille sueca, marca Index, modelo Basic Braille Printer, para formulário continuo, dupla face de impressão;
02 chaves comutadoras;
01 no-break/estabilizador de voltagem;
01 filtro de linha com seis tomadas;
01 fax Panasonic modelo KX-F890;
02 linhas telefônicas 035-3714-3807 e 035-3697-2127;
02 sintetizadores de voz, sendo um fornecido pela MICRO POWER (Virtual Vision) e outro fornecido pela KATIA MULTIMIDIA (DOSVOX).
O Centro de Computação “CPB ALCOA FOUNDATION” projetado pela entidade e financiado pela ALCOA FOUNDATION está ligado à internet e a HOME PAGE ou SITE é www.aadv.com.br. Nosso endereço eletrônico é aadv@pocos-net.com.br.Pode-se imaginar a diferença entre o trabalho anterior, manual, e o atual com os recursos da informática, na produção de material didático. No trabalho manual uma pessoa era usada para a transcrição de material didático para cerca de dois alunos; com nosso centro de computação, todos os alunos da Escola Municipal Helen Keller, administrada por esta instituição por convenio com a Prefeitura Municipal – são mais de 100 na atualidade – e mais estudantes da região, que se socorrem dos nossos recursos.
